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Fazer por Fazer: O Perigo das Práticas Sem Razão nos Hospitais

Conheça o Custo Invisível do “Sempre Foi Assim”

Em 2019, o médico e pesquisador Abraar Karan publicou no British Medical Journal (BMJ) um artigo provocador intitulado “Doing things for no reason in the hospital” (BMJ 2019;364:l841). A reflexão parte de uma situação corriqueira, mas repleta de significado: um paciente, impossibilitado de descansar devido a checagens de sinais vitais desnecessárias, fios desconfortáveis e barulhos constantes, questionou a real utilidade de tantos procedimentos. A resposta é desconfortável, mas urgente: muitos dos processos realizados nos hospitais permanecem ativos apenas porque “sempre foi assim”, se tornando práticas sem razão.

Essa realidade escancara um dos maiores dilemas da gestão hospitalar moderna: o excesso de rotinas sem evidência, que sobrecarregam equipes, aumentam custos, reduzem a experiência do paciente e, em última instância, não trazem benefícios clínicos significativos.

 

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O Custo Invisível do “Sempre Foi Assim”

Estudos indicam que até 30% das intervenções médicas podem ser desnecessárias ou de baixo valor agregado (Brownlee et al., 2017, Lancet). Isso inclui desde exames laboratoriais redundantes até medições excessivas de parâmetros fisiológicos em pacientes estáveis. Nos Estados Unidos, estima-se que desperdícios relacionados a cuidados ineficientes gerem um custo anual entre 760 e 935 bilhões de dólares (Shrank et al., JAMA, 2019).

No Brasil, embora não haja números consolidados em mesma escala, o impacto é igualmente expressivo. Cada aferição sem necessidade implica tempo da equipe de enfermagem, desgaste físico e psicológico do paciente e um custo indireto que poderia ser alocado em ações de maior impacto na segurança e qualidade da assistência.

 

 

Experiência do Paciente: Um Pilar Negligenciado

O paciente citado por Karan representa milhares de outros que vivenciam hospitais como ambientes de interrupções constantes. Privados do descanso essencial para sua recuperação, eles enfrentam noites de desconforto e ansiedade. A literatura já demonstra que a privação de sono em ambientes hospitalares aumenta o risco de complicações clínicas, prolonga a internação e reduz a satisfação do paciente (Delaney et al., 2018, Journal of Hospital Medicine).

Assim, não se trata apenas de eficiência operacional, mas também de humanização do cuidado e experiência do paciente – pilares cada vez mais valorizados em modelos de acreditação e em sistemas de saúde centrados em valor.

 

Da Cultura do “Sempre” para a Cultura da Evidência

O desafio é cultural. A lógica do “sempre fizemos assim” persiste porque mudar requer análise crítica, revisão de protocolos e, sobretudo, coragem institucional para eliminar o que não agrega valor.

Iniciativas internacionais, como o movimento Choosing Wisely, têm destacado a importância de repensar práticas médicas com base em evidências, evitando exames e procedimentos sem respaldo científico. Ao adotar essa mentalidade, organizações de saúde não apenas reduzem desperdícios, mas também fortalecem a confiança do paciente, demonstrando que cada ato é justificado, necessário e alinhado ao seu bem-estar.

 

Acreditação e Governança Clínica como Caminhos

No contexto brasileiro, programas de acreditação hospitalar e modelos de governança clínica oferecem um caminho estruturado para enfrentar o problema. Ao incorporar metodologias de melhoria contínua, gestão por indicadores e revisão crítica de processos, as instituições conseguem mapear práticas de baixo valor e substituí-las por ações baseadas em evidência científica.

Além disso, a experiência do paciente, um dos focos centrais da acreditação internacional, coloca em evidência a necessidade de equilibrar tecnologia, protocolos e humanização. Afinal, cuidar bem não é fazer mais: é fazer certo, no momento certo, pelo motivo certo.

 

Reflexão Final

“Fazer por fazer” não pode mais ser aceitável em hospitais modernos. Cada procedimento, cada exame, cada monitoramento deve responder a uma pergunta simples: isso contribui para o desfecho clínico e para o bem-estar do paciente?

A mudança de paradigma exige líderes corajosos, profissionais críticos e instituições comprometidas com a qualidade. Afinal, não basta garantir recursos e protocolos, é preciso também eliminar aquilo que não agrega valor.

E você, profissional de saúde ou gestor: quantas práticas da sua instituição existem apenas porque “sempre foi assim”? Está na hora de repensar.

 

Fonte da imagem: Envato

Referências:

• Karan, A. (2019). Doing things for no reason in the hospital. BMJ, 364:l841. doi:10.1136/bmj.l841
• Brownlee, S., Chalkidou, K., Doust, J., et al. (2017). Evidence for overuse of medical services around the world. The Lancet, 390(10090), 156–168.
• Shrank, W. H., Rogstad, T. L., Parekh, N. (2019). Waste in the US Health Care System: Estimated Costs and Potential for Savings. JAMA, 322(15), 1501–1509.
• Delaney, L. J., Currie, M. J., Huang, H. C., Lopez, V., & Van Haren, F. (2018). Sleep in the intensive care unit: An integrative review. Journal of Hospital Medicine, 13(10), 764–772.



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